MOEDA COMEMORATIVA AOS 2OO ANOS DA DRAISIANA, A AVÓ DA BICICLETA

A Alemanha comemora o bicentenário da invenção da bicicleta, ou de sua precursora,  com a cunhagem de uma moeda de 20 euros com a Laufmaschine, a “máquina de corrida”.  A draisiana como também é conhecido o veículo criado pelo barão Karl von Drais de Mannheim, em 1817

A moeda de prata em comemoração aos 200 anos da bicicleta

Hoje ela lembra uma balance-bike (aquela bicicletinha para que a criança aprenda a se equilibrar), mas em 1817, a  laufmaschine – ou draisiana,   foi a invenção do Barão Karl von Drais que  revolucionou o transporte. Um veículo que não utilizava cavalos como força motriz, impulsionado pelo homem e que da sua evolução surgiu a bicicleta.

Em 12  junho de 1817 em uma das melhores estradinhas de  Mannheim, na Alemanha, o barão Karl von Drais fez a sua primeira demonstração do seu veículo. A proposta era cobrir um percurso entre 12 e 14 quilômetros  até o posto de controle de  Schwetzinger, um ponto estratégico ao longo da rota postal. Em menos de uma hora, von Drais já havia retornado, cobrindo o trajeto a uma  velocidade média de cerca de 15 km/h, melhorando os registros das carroças do correio da época.

Para comemorar essa importante data os alemães fizeram uma série de eventos, entre eles uma exposição na cidade de Manneheim,  intitulada “2 rodas – 200 anos. O barão de Drais e a invenção da bicicleta” que apresenta um homem vanguardista, outra exposição será a“Mannheim Bike – onde tudo começou”, no  mês de setembro será realizado um show de som e luzes nas paredes do palácio Mannheim Schloss, segundo o conselho de turismo da cidade  “Em uma jornada multivisual de teatro, música e luz, o triunfo global da bicicleta será promulgado e celebrado”. Apesar de suas ideias avançadas, são poucos os registros que levam aos caminhos de von Drais até a ideia final, uma delas é a frase  “A ideia principal da invenção surgiu da patinação no gelo” que serve como abertura da exposição.

Folheto promocional da Laufmaschine de Karl Von Drais

Outra homenagem, e essa toca diretamente o mundo dos colecionadores – seja de coisas ligadas ao mundo das duas rodas como da numismática  – é a cunhagem, pelo Ministério Federal Alemão das Finanças, de uma moeda de prata com valor 20 euros alusiva à data.

O Ministério das Finanças alemão realizou um concurso para escolher o design da moeda. Na comissão julgadora estava  o eminente historiador da bicicleta Professor Dr. Hans-Erhard Lessing.  O desenho da moeda foi criado pelo artista Friderich Brenner que conseguiu nesse pequeno espaço retratar o momento em que foi apresentada a draisiana. No fundo aparece uma erupção vulcânica na Indonésia que provocou grandes problemas climáticos no mundo em 1816, e que  ficou conhecido como o Ano sem Verão. O mau tempo, que provocou  quebras das colheitas em todo o mundo,  e que levou Drais a procurar um meio de transporte que pudesse substituir o cavalo. O resultado foi sua invenção.

O cavalo de  dândi, como também é conhecida sua invenção , e seu cavaleiro aparecem em primeiro plano, com uma inscrição em alemão referindo-se à máquina de correr, o nome de Karl von Drais e o ano de sua invenção. O outro lado da moeda tem a águia e a inscrição República Federal Alemã; a indicação da composição de prata de 925 da moeda, moldada dentro de um círculo com as 12 estrelas da União Europeia, o ano de 2017 e o valor de 20 euros.  A moeda pesa 18 gramas e tem 32,5 milímetros de diâmetro. Por se tratar de uma moeda comemorativa, a mesma não terá circulação, mas no seu lançamento o preço de oficial de comercialização era de 34,95 euros ( aproximadamente R$ 132).

Mas é preciso conhecer um pouco mais sobre o homem que desenvolveu um veículo após uma grave crise climática: Karl Freidrich Christian Ludwig Freiherr Drais von Sauerbronn (29 de abril de 1785 – 10 de dezembro de 1851), nasceu em Karlesruh, Baden, em  uma família de funcionários públicos influentes com algumas conexões junto à realeza.  Sua mãe era a baronesa von Kaltenthal, seu pai serviu como juiz, e seu padrinho era o grande duque de Baden Karl Freidrich.

Modelo construído sob licença de Karl Von Drais em 1820 – foto: picture alliance / dpa / ua FPT

Desde muito jovem, Drais se interessou por ciência e matemática, estudando silvicultura antes de se especializar em Matemática, Física e Arquitetura na Universidade de Heidelberg. Através de conexões governamentais, o pai de Drais conseguiu que ele fosse aceito como Mestre Florestal e ainda assegurou-lhe uma licença para que pudesse desenvolver suas invenções.. Ele criou um sistema de gravação de música para piano, algoritmo binário para calcular raízes quadradas, periscópio, máquina de escrever e uma forma de “escrita secreta”.

A sua atuação mais importante está ligada às questões ambientais e à mobilidade – muito antes que elas estivessem em pauta. Entre 1812 e 1815 as colheitas de grande parte da Europa foram baixas, os preços dos grãos subiram muito enquanto os soldados de Napoleão, na retirada de Moscou, invadiam celeiros para garantir alimentos. A crise se agrava quando do outro lado do mundo, em 5 de abril de 1815 o Monte Tambora, na Indonésia, entrou em erupção, provocou uma das maiores explosões vulcânicas já registradas que produziu uma nuvem de cinzas provocando a queda das temperaturas na Europa e na América do Norte em até 3ºC. Com isso, 1816, o ano seguinte, ficou conhecido como o ano sem verão; quando as colheitas não vingaram, vários rios congelaram, a comida ficou escassa e os cavalos quando não morriam de fome, serviam de alimento.

Em meio a essa crise,  von Drais buscava soluções para o transporte. Primeiro criando uma pequena carruagem que era conduzida por um servo desde o banco traseiro. Depois, talvez inspirado pelo celerífero  criado pelo conde Sivrac – um cavalo com duas rodas que se tornou passatempo popular na França no final dos anos de 1790 apontou sua inventividade  para máquinas de duas rodas. Em 1817 seu novo projeto ganhou o nome de laufmaschine ou máquina de correr, também conhecida como draisiana. O projeto era simples consistia em duas rodas de carroça pequenas, alinhadas montadas a uma armação de madeira; com uma coluna de direção triangular montada sobre a roda dianteira e algo mais parecido a um selim acolchoado.

Replica de uma draisiana construída pelo designer Marcos Bertoni

Para fazer a laufmaschine ganhar velocidade o “cavaleiro” deveria movimentar os pés no chão como se estivesse dando grandes passos enquanto o equipamento ganhava velocidade, podendo chegar a uma velocidade média de 10 km/h. Para frear o equipamento, bastava puxar um cordão que passava por debaixo do “quadro” e que acionava um bloco de madeira que pressionava a roda.

Um segundo teste foi realizado com a draisiana entre Gernsbach e Baden passando por uma colina que apesar de curta, 250 metros, era bem íngreme. Segundo relatos, um policial da localidade marcou o tempo, von Drais saiu às 4:00 e cobriu o percurso  em uma hora a uma velocidade média de 7 km/h, reduzindo a metade o tempo de viagem habitual e impressionando o público que acompanhou o desafio.

Drais já tinha em sua cabeça as aplicações para a sua criação: ela poderia servir no transporte postal, no serviço militar, nos trabalhos florestais ou para cobrir pequenas distâncias. Em outubro do mesmo ano, o inventor publicaria um folheto com vários modelos de laufmaschines de 2 e 4 rodas e um tandem. No folheto duas ilustrações se destacavam: uma era um cavaleiro vestido com um uniforme amarelo do correio militar.

Há 200 anos quem desejasse sua draisiana poderia comprar um modelo pré-fabricado e montá-lo ou adquirir os desenhos e o direito para a fabricação de uma cópia. Os modelos produzidos por Drais saiam autenticados com uma placa com um número em relevo e com o brazão de von Drais. Em 1818 Drais publicou seu folheto em francês, a laufmaschine  passou a se chamar  vélocipède  e incluía como acessórios um guarda-chuva, vela e lâmpada. Além disso para promover o seu invento,  organizou no Jardin du Luxembourg, em Paris, um encontro de draisianas, aonde o público comprou ingressos para conhecer e ver funcionar nova máquina.

Apesar da boa repercussão o seu invento foi criticado, alguns o acharam perigoso, outros o trataram como brinquedo de gente grande. Em algumas cidades, o novo veículo foi proibido,  incluindo Milão em 1818, Londres e Nova York em 1819. Porém o maior problema que von Drais enfrentou estava ligado a um tema muito atual: a Pirataria.

O desenho da laufmaschine era fácil de ser copiado e produzido. Aconteceu em seu próprio pais, só em Dresden 5 fabricantes copiaram sua invenção, e  assim também foi na Inglaterra aonde surgiram os horse dandy – ou cavalos de dândi; depois vieram modelos melhorados, mais leves com metal substituindo o quadro de madeira, rodas maiores e mais estáveis e além da evolução, os novos modelos foram patenteados por britânicos.

O Barão von Drais , enfrentou várias crises e as guerras internas da Alemanha. Entre 1819 e 1827 morou no Brasil, voltou para o seu país aonde morreu, aos 66 anos, pobre, alcoólatra e com vários  inimigos por causa de seu apoio a movimentos revolucionários liberais, o que o levou inclusive a renunciar a seu título de nobreza.

Pouco tempo depois da sua morte, a evolução da  draisiana  já contava com pedais e tornava forma de  bicicleta,  mais uma vez ganhando o mundo e com isso, o nome de Karl von Drais também foi recolocado em seu devido lugar, ganhando o respeito dos seus conterrâneos e do mundo, outorgando-lhe o título de pai da bicicleta.

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