O RESSURGIMENTO DO TEMPLO VIGORELLI

Após alguns anos de abandono e incertezas por parte das autoridades, um dos templos do ciclismo mundial, o velódromo Maspes Vigorelli,  da cidade de Milão,  teve sua primeira parte do projeto de revitalização concluída: o histórico piso de madeira foi refeito em partes e para testá-lo, trinta anos depois de estabelecer naquela pista o recorde da Hora, as autoridades convidaram o il sceriffo Francesco Moser para rodar nos 400 metros da pista de madeira do Val de Fiemme

Francesco Moser com a mesma bicicleta usa em 1986 para o Recorde da Hora

Francesco Moser com a mesma bicicleta usa em 1986 para o Recorde da Hora volta à pista do Vigorelli

Uma triste coincidência marcou o fim – temporário –  do histórico velódromo Vigorelli:  11 de setembro de 2001 seria disputada na pista milanesa uma prova do campeonato italiano de ciclismo de pista, o atentando às Torres Gêmeas de Nova York provocou o cancelamento do evento, e desde aquele dia uma das mais tradicionais pistas de madeira do mundo ficou entregue à ação do tempo, ao abandono, as bicicletas não deslizavam mais por suas madeiras.  Sua área central foi transformada em casa do Seamen e Rhinos, equipes locais de futebol americano e ao menos em umas cinco idas e vindas governantes prometeram sua reabertura,  foi só com um decreto de 2013 que todo o complexo e seu projeto de restauração foi levado adiante quando anexado a um projeto maior de requalificação ou reurbanização de toda a área aonde está localizado o velódromo.  É bem verdade que optou-se pelo plano “B”, muito mais modesto em todos os sentidos, porém  previa a manutenção da antiga pista de 400 metros (na verade 397,7 metros, com larura de 7,50 mestros e uma inclinação máxima nas curvas de 42 graus), ao invés da montagem de uma nova pista de 250 metros que atenderia aos padrões da UCI para os campeonatos mundiais e olímpiadas e que no primeiro projeto era desmontável com um custo total na casa dos 16 milhões de Euros (R$ 64 milhões) o plano aprovado para ser executado em três anos tem um custo de 7 milhões de euros (R$ 28 milhões), além de se manter a história os contribuintes locais também podem agradecer pela economia aos cofres públicos

Na reestruturação da  foram mantidos pedaços da antiga pista que recebeu novas inserções de madeira

Na reestruturação da foram mantidos pedaços da antiga pista que recebeu novas inserções de madeira de Abeto Vermelho

No movimento pelo ressurgimento do velódromo destacam-se as ações do “Comitato Vigorelli” formado por cidadãos e ciclistas (muita gente que entrou no esporte graças às bicicletas de pinhão fixo e todo o movimento do ciclismo urbano e de bike couriers)  que entendiam que aquilo tudo deveria ser preservado e seu uso aberto à população. Para dar força à manutenção das medidas da antiga-nova pista ainda havia o argumento de  que todas as outras competições oficiais podem ser realizadas ali, é apenas uma questão de homologação da pista, assim porque não sonhar novamente com os 6 dias e outras provas de relevância internacional.

A primeira fase das obras foi iniciada em fevereiro de 2016 e deve se concluir até o final do mês de julho, e tem por objetivo fazer a manutenção da cobertura parcial da pista e arquibancadas e o restauro da pista de madeira. A metragem da pista original foi mantida e seus 400 metros de madeira foram trabalhados pela Serraria da Magnifica Comunidade de Fiemme (não se espantem com o nome, é esse mesmo) que trabalhou todo o madeiramento e também criou uma área sustentável no Val di Fiemme aonde foram plantados 300 abetos vermelhos – um tipo de pinho utilizado para a produção das tábuas do piso da pista – dando origem ao “Bosque Vigorelli” de onde será extraída a madeira para a manutenção da pista.

A segunda fase do projeto deverá ser iniciada no final do outono, e será bem breve, mas pouco tem a ver com as bicicletas: o campo de futebol americano com quem o ciclismo dividirá fraternalmente o espaço passará por reformas, recebendo uma grama sintética de melhor qualidade e suas dimensões serão adequadas para permitir uma coexistência com a outra modalidade.

Grandes nomes da música se apresentaram no Vigorelli. Os Beatles fizeram a primeira grande apresentação em 1965; em 1971  foi a vez do Led Zepellin em um concerto marcado por confrontes entre o público e a polícia. O Kiss se apresentou em 198o junto com o Iron Maiden. O último a se apresentar foi James Brown em 1999

Grandes nomes da música se apresentaram no Vigorelli. Os Beatles fizeram a primeira grande apresentação em 1965; em 1971 foi a vez do Led Zepellin em um concerto marcado por confrontos entre o público e a polícia. O Kiss se apresentou em 198o junto com o Iron Maiden. O último a se apresentar foi James Brown em 1999

O projeto todo só será concluído em maio de 2018, com a finalização da terceira parte das obras que apontam para a reestruturação interna buscando a racionalização dos espaços e ainda fazer ressurgir a histórica academia de boxe Ravasio de onde surgiram outros tantos campeões.  O Vigorelli sempre foi um polo cultural e desportivo, não se limitando às duas rodas mas recebendo no passado shows , ao final do plano de reestruturação espera-se uma arena para 7 mil pessoas.

Em 7.11.1942 Fausto Coppi estabeleceu o Recorde da Hora no Vigorelli que escapou dos bombardeios dos aliados; porém um ano depois, em 1943 parte da pista seria destruída por bombas incendiárias lançadas por aviões dos aliados

Em 7.11.1942 Fausto Coppi estabeleceu o Recorde da Hora com 45.871 km/h no Vigorelli que escapou dos bombardeios da Segunda Grande Guerra; porém um ano depois, em 1943 parte da pista seria destruída por bombas incendiárias lançadas por aviões dos aliados

Nos primeiros dias de junho o Vigorelli começou a receber as primeiras visitas não oficiais, ainda faltava algum ou outro acabamento na pista, as madeiras não haviam recebido o envernizamento que deixa a pista com a cor característica de um violino Stradivarius, sim o Vigorelli usa a mesma madeira dos famosos violinos e nela que alguns ex-campeões como Guido Bontempi, o Marino Vigna, Sante Gaiardoni e Mary Cressari recordista da hora e que em 1974 estabeleceu no Vigorelli o primeiro recorde feminino para os 100 km a uma média de 37.741 km/h e um grupo de jovens apaixonados oriundos dos movimentos urbanos que usam a bike fixa, trabalham como bike couriers e se envolveram com a proposta de salvar a pista da mítico velódromo tiveram o privilégio rodar na pista recuperada. Há quem reclame da diferença entre o madeiramento antigo, já estabilizado, e o novo “ainda vivo”, com sua característica movimentação, porém é apenas um detalhe diante do significado do ressurgimento dessa emblemática pista.

Em 1955 a chegada da última etapa do Giro vendido por Fiorenzo Magni aconteceu no Vig

O Giro d’Italia de 1955 vencido por Fiorenzo Magni teve a chegada da última etapa no Vigorelli – foto: Bettmann-Corbis

Oficialmente e para a grande maioria dos meios de comunicação fica o registro do convite oficial de 27 de junho, quando o xerife Moser entrou na pista com a mesma bicicleta de 1986, após uns giros declarou: “Hoje é um grande dia, para mim é uma emoção retornar a esta pista com esta bicicleta. A primeira vez que pedalei sobre estas madeiras era amador da Scuola Coppi, em 1970, no selim da mia Frejus eu tinha um quê de medo, ao cair o risco de sair com asa pernas cheias de farpas de madeira era grande…” . Na reapresentação da pista, entre os tantos nomes do ciclismo italiano também marcaram presença Gianni Motta, Giuseppe Saroni e o maestro Ernesto Colnago – que todos os anos doa 50 bicicletas de pista para os centros aonde se desenvolve o ciclismo de pista italiano.

A pista inaugurada em 28 de outubro de 1935 renasceu das mãos de um movimento urbano que tomou paixão pela história e pelo esporte. Foi no Vigorelli que três dias após a sua inauguração, Giuseppe Olmo estabeleceu o recorde da Hora, e que anos mais terde receberia Coppi, Anquetil, Roger Riviere e Francesco Moser para lutar contra o tempo, ao todo foram  10 os recordes da Hora estabelecidos no Vigorelli. A casa dos 6 dias de Milão também O Vigorelli também recebeu 23 chegadas de etapa do Giro d’Italia, tantas outras do Giro di Lombardia e do Trofeo Baracchi, sediou 4 edições dos Campeonatos Mundiais de Pista, sendo que  1955 o italiano Antonio Maspes conquistou seu primeiro de seus sete títulos, assim por uma justa homenagem, após a sua morte em 2000 o velódromo passou a ser denominado Maspes-Vigorelli. Também debaixo de uma das arquibancadas do Vigorelli estava localizada a lendária  Officina de Faliero Masi, tradicional construtor de quadros de corrida que levavam a marca Masi.

Ciclisti sulla pista completamente rinnovata del velodromo Vigorelli, riaperto eccezionalmente in occasione dell'inaugurazione, Milano, 02 giugno 2016. ANSA/DANIEL DAL ZENNARO

As primeiras pedaladas na reabertura do Vigorelli – foto: ANSA/Daniel Dal Zennaro

Para os italianos e para todo apaixonado pelo ciclismo de pista, a torcida é para que este templo  tenha um bom uso e nele surjam novos campeões para continuar a escrever a história do esporte. Lá como cá os políticos sempre exageram nas promessas, ao menos os cidadãos milaneses conseguiram salvar a história do esporte – vale pensar no velódromo da USP, no esqueleto daquilo que foi o velódromo Pan Americano largado em São José dos Pinhais e de qual será o futuro do velódromo Olímpico do Rio de Janeiro , aliás alguém sabe o nome com o qual foi ou será batizado aquele equipamento discretamente inaugurado e ainda em obras?

No vídeo os primeiros testes na pista recuperada do Vigorelli com dois ciclistas perseguindo o stayer

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