SHIMANO FEST: 25,5 MIL QUE CURTEM BICICLETA NO JOCKEY

O Shimano Fest  a cada ano se confirma como o grande  evento brasileiro da bicicleta que agita a capital paulista por um final de semana. Um sucesso que está intimamente ligado à proposta do evento:  um  festival aberto que reúne negócios, tecnológica, competições, cultura e o principal: gente que pedala e curte a bicicleta. Na oitava edição que se encerrou no último domingo, 25,5 mil pessoas  passaram pelo Jockey Club durante os quatro dias de eventos  

Shimano Fest 2017 no Jockey   – foto: Fernando Siqueira/FS Fotografia

Festival, feira, negócios, encontro, competição…. são muitas as leituras que podem ser feitas  sobre o que se tornou o Shimano Fest desde que começou tímido em 2010 para ser um festival que faria parte do programa do circuito Latino Americano de Mountain Bike Short Track, evento patrocinado pelo escritório regional da gigante japonesa e o que é hoje:  um mega evento com estrutura de dar inveja a muito festival de música e a muita feira setorial.

Talvez, é bem provável que a grande maioria das descrições não consiga traduzir,  na verdade,  a essência do evento e de como ele é. Isso porque não é uma simples ação comercial como são concebidas as feiras de negócios, tampouco é um evento para promover competições – apesar das grandes disputas vistas no último final de semana.

Há de se encarar o Shimano Fest como o grande movimento que representa a bicicleta e sua gente.  O encontro tomou um gigantismo que superou o patrocínio da marca que o criou e que lhe dá fôlego – e no setor  todos sabem que os custos cobrados dos expositores são para contribuir na produção da festa que a cada ano se torna maior.  A torcida é para que continue a crescer sem perder essa essência que carrega a leveza do simples ato de pedalar por puro prazer.

A garotadinha se divertiu na pista de pump track – foto: George Panara/Mundo Bici

Há também um diferencial que podemos apontar no Shimano Fest: o envolvimento do pessoal da casa. Sim, os anjos azuis, o apelido carinhoso que foi dado aos funcionários da casa que trabalham no apoio neutro nas corridas de mountain bike e ciclismo de estrada merece ser estendido a todos os que trabalham no evento.  Há sempre no ar aquele cuidado com o visitante, com quem foi trabalhar ou está competindo.  Mas saiba o leitor que apesar da responsabilidade e do duro trabalho,  há em seus rostos muita alegria, emoção e carinho e isso faz muita diferença e é perceptível a todos.  A sensação de que você é bem vindo não é exclusiva ao grupo de jornalistas que muitas vezes passa os quatro dias do evento e cria um envolvimento maior com as equipes de trabalho, mas as boas vindas são estendidas a todo aquele que vai ao evento.

Segundo o  presidente da Shimano Latin America e North America, Fabio Takayanagi, “A proposta era reunir as pessoas, curtindo um fim de semana agradável, e acho que conseguimos atingir nosso objetivo” , ainda segundo Takayanagi: “Muita gente, com a reunião de famílias, amigos e crianças, prestigiou o evento. Só pudemos ver sorrisos nos rostos de quem andava de bicicleta, fazendo o test-ride, arremesso de pesca, conhecendo as novidades que o setor tem para apresentar. Foi realmente incrível estar aqui esses dias”.

Pedal Inclusivo – Bikxi em ação. Rudnei volta a sentir o prazer de estar em uma bicicleta. foto: Filipe Santiago/ FS Fotografia

O tempo bom  – muito sol e temperaturas por cima dos 30ºC – ao longo dos 4 dias contribuiu para que mais visitantes chegassem ao evento pedalando e fosse superada a marca de 1,7 mil bicicletas estacionadas. Nesta edição que acaba de se encerrar,  a organização registrou 4.300 bicicletas estacionadas no bicicletário do Shimano Fest. É verdade que houve até um certo congestionamento de ciclistas que optaram não deixar sua bicicleta no estacionamento (ok – estava lotado) , preferindo circular com sua bicicleta pelas áreas de eventos e exposição. Mas estamos falando de uma cifra expressiva de gente que se move em bicicleta, um sinal para autoridades e todo o setor.

O evento ao que tudo indica também começa a se firmar como uma feira ou encontro de negócios setorial. Nos dois dias onde exclusivamente operadores do setor (lojistas) estiveram presentes,  pouco mais de 5,4 mil pessoas, um impressionante crescimento de 80% quando comparado aos 3 mil visitantes da edição de 2016. Na Arena Expo havia mais de 200 marcas expostas e muitos lançamentos da linha 2018 foram apresentados ali no Jockey.  O mercado em peso mostrou sua força , claro que  alguns dirão que  faltaram três marcas importantes,  mas para quem entendeu o que é o evento é um fato que passou despercebido. E os negócios de fato aconteceram, muita reunião de vendas, muita informação de produtos.

Competição de mecânicos. Jose Wellington, o Baiano avalia trabalho de montagem de componentes – foto: George Panara/Mundo Bici

O crescimento do evento como encontro de negócios talvez obrigue à organização a ampliar a área coberta, que era uma novidade nesta edição,  e que se mostrou muito útil devido ao forte sol que se fez presente ao longo dos 4 dias do evento.

Um destaque foi a área de Test Ride aonde estavam disponíveis mais de 100 bicicletas de 15 marcas para serem testadas no percurso do Short Track.  Para quem quisesse conhecer como funcionam as as e-bikes ou bicicletas elétricas a pedalada assistida,  foi montada uma mega rampa de 40 metros, aonde o ciclista poderia testar o trabalho dos montorzinhos elétricos – alguns da série e-Steps da Shimano – sob o esforço de uma subida. Muitos ciclistas que testaram as e-bikes saíram do teste com uma visão mais favorável a esses sistemas de pedaladas assistida.  O sucesso desse espaço se traduz em números cerca de 4,8 mil pessoas – pedalaram ou testaram bicicletas ao longo dos 4 dias que durou o evento.  Só nos dois primeiros dias, quando o evento era exclusivo para lojistas e imprensa foram mais de 1,3 mil testes.

É preciso entender que esse formato de festival busca,  antes de tudo,  uma maior aproximação com o consumidor final . Um espaço ao ar livre, estruturas mais informais para quem está expondo possibilitam um contato, uma troca de informações  diferenciada que colocam o usuário mais próximo do seu sonho de consumo ou da descoberta de novidades. E aí que está o grande trunfo comercial: mostre-se para o consumidor que ele irá à sua loja de preferência em busca daquilo que ele viu.

Área externa de exposição – foto: George Panara/Mundo Bici

Essa tendência de festival outdoor que reúne competições com exposição/feira de produtos vem do Sea Otter  Classic que começou em 1991 na Califórnia e que neste ano já ganhou sua versão espanhola na cidade de Girona e também da gigantesca prova francesa Roc D’Azur . Se o operador do setor entender esse conceito e a vantagem da proximidade com o consumidor final – que nem sempre existe nas feiras voltadas para o Business – superam-se muitos preconceitos , afinal estamos em um evento ao ar livre e montado em um “espaço aberto” ao lado de uma área que receberá uma competição de mountain bike, entre outras atrações ao ar livre.

Entre eventos os paralelos ao Shimano Fest, aconteceu o Bike Mobility com palestras e debates, com destaque para amesa redonda que serviu para apresentar o Velocity 2018 que acontecerá no Rio de Janeiro . Trata-se de um encontro que acontece a cada dois anos aonde ciclistas, estudiosos, pesquisadores e empresários do setor se reúnem para discutir a bicicleta nas cidades.  O encontro realizado durante o SHFest reuniu  Gabriela Binatti, da Associação Transporte Ativo; Márcio Deslandes, diretor da Velo-city Rio 2018 e da ECF – European Cyclist Federation ; Eduardo Pane, gerente de projetos do Grupo Univers; Tomás Martins, CEO da Tembici; e o José Police Neto, vereador de São Paulo. Na pauta do debate foram abordados os temas como os modelos de bike-sharing a serem implantados no país e a necessidade de que o  poder público esteja atento a novas soluções e também até a carga tributária que incide sobre a bicicleta.

Saindo das conversas e indo para a ação social, a organização do evento promoveu o pedal inclusivo,  aonde deficientes visuais da Ong Laramara foram levados a um passeio pela área de test-ride com as bicicletas da Bikxi – uma operadora de transporte que utiliza tandens de dois lugares para transportar passageiros. Para alguns foi a primeira experiência com uma bicicleta, para Rudnei Ugioni foi reviver uma sensação que ele havia perdido 25 anos atrás. “A sensação foi de liberdade. Fazia tempo que eu não sentia algo igual. Dá vontade de ficar na bike por muito tempo, sem parar e acelerando. Tenho 36 anos e enxerguei até os 11. Antes, eu andava de bike normalmente. Foi minha primeira vez em uma bike dupla e é legal sentir que a força que o condutor faz nos ajuda a ir mais longe, embora eu tenha pedalado também”, disse Rudnei. “É muito bom, porque nos sentimos incluídos de verdade. Mostra para a sociedade que não há diferenças entre nós e as outras pessoas. Desta forma, nos sentimos muito bem. É gratificante e especial. Foi perfeito”, agradeceu.

Sem a cobrança e ingressos para os visitantes, a organização sempre sugere a doação de um quilo de alimento não perecível, a solicitação teve um resultado muito positivo com a arrecadação de 3 toneladas de alimentos que serão distribuídas entre a Casa da Prece Chico Xavier, em São Paulo, asilo Lar Bussocaba, em Osasco, e Ong Lar Nossa Senhora Aparecida, de Parelheiros, na capital paulista. O grupo Pedal Solidário foi responsável por organizar um passeio de bicicleta saindo do Shimano Fest para entregar quase 2.000 kg de alimentos no Lar Bussocaba.

Mas uma festa de bicicletas, não é festa completa se não tiver disputas emocionantes. E nos dois dias do Bike Competition  o público pôde –além de ver grandes nomes do esporte a pedal – conversar com seus ídolos.  Na pista de 1,1 km  desenhada e construída pelo ídolo do mountain bike –  Márcio Ravelli – foram disputadas as provas de Mountain bike eliminator, Short Track e Ciclocross.

A disputa com as estradeiras aconteceu no domingo com o Criterium na av. Lineu de Paula Machado, também conhecida como avenida do Jockey.    Lauro Chaman/Funvic venceu o sprint da categoria elite, e sua companheira de equipe, Wellyda dos Santos levou a prova feminina.  O criterium é quase uma prova de velódromo de meio fundo,  com sprints intermediários contando pontos.  Corrida curta, rápida e muito emocionante.

Nas provas de mountain bike  Short Track – os campeões brasileiros Luis Cocuzzi e Raiza Goulão  foram os vencedores. Cocuzzi já havia deixado sua marca no sábado à noite ao vencer a prova de XCE  eliminator  teve muito trabalho para confirmar a sua vitória no Short Track. A definição da prova aconteceu quando faltavam uns 300 metros e Cocuzzi resolveu atacar para se destacar do grupo e vencer com facilidade no sprint superando a Rubinho Valeriano, seguido por Guilherme Muller, Sherman Trezza e José Gabriel Marques.

Na prova feminina a atual campeã brasileira de XCO, Raíza Goulão  impôs o seu ritmo e venceu pela terceira vez o evento (2013/14). Aline Simões, Danielle de Moraes, Livia Dantas e Bianca Gonçalves completaram o pódio.

Raiza Goulão vencedora do Short Track – foto: George Panara/Mundo Bici

O Shimano Fest também apresentou uma outra novidade, no sábado foi realizado o Festival Groove de Música – Sons da Paulista – aonde quatro bandas ( Zombie e o Folclore, Luzia, Dona Laíe e Amoradia do Som disputaram o prêmio oferecido pela Groove Bikes.  A escolha da banda foi realizada entre o público presente que elegeu o rock autoral e pesado da banda Amoradia do Som como a melhor banda do Festival .

Amoradia do Som recebe de Sergio Gallo da Groove, o prêmio de melhor banda – foto: George Panara/Mundo Bici

Além das quatro bandas que participaram do Groove Festival, outras três bandas subiram ao palco : Remove Silence, Sinfonia Rock e Carbono Rock.  Ainda nas atrações musicais, não faltou a tradicional apresentação que acontece sempre aos domingos do grupo Kiendaiko e seus tambores de Taiko.

 

A batida forte da percussão Taiko fica sempre registrada em nosso sentimento e nos faz vibrar ao mesmo tempo que o som das flautas utilizadas nessa manifestação cultural oriental  nos levam a uma viagem leve. Assim é o Shimano Fest,  um evento com a marca da emoção e da sensibilidade – a questão é manter essa linha tênue de fazer o evento crescer sem que se perca a essência de um festival outdoor de congraçamento de marcas, aonde é possível encontrar esportistas sem a pressão por uma vitória mas com a vontade de competir,   é também um ponto de encontro de amigos e até de tomar uma cerveja e falar de bicicletas. Não é simples, mas uma vez mais eles conseguiram. Essa semana deixa saudades, mas sabemos que já estão trabalhando em novas ideias e projetos para 2018.

 

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