TOUR DE SUISSE: SEM DINHEIRO DA TEVÊ ESTATAL O FUTURO ESTÁ EM RISCO

 O Tour de Suisse corre perigo.  No próximo dia  4 de março, os cidadãos suíços votarão em um plebiscito para decidir se querem a abolição das tarifas de licenças de rádio e televisão – que está sendo chamada de No Billang. Se o projeto passar,  estão em risco a cobertura televisiva do ciclismo suíço e a sobrevivência do tour criado em 1933

Tour de Suisse – foto: TDWSport

Os cidadãos suíços que votarão no plebiscito no próximo dia 4 de março tem em suas mãos, indiretamente, o futuro do ciclismo suíço e da transmissão das imagens de outros esportes geradas pelos seus canais estatais se optarem pelo sim  ao chamado No Billang que nada mais é que o não pagamento das taxas para a manutenção estatal do sistema de radio e televisão

A questão não é simples. Quem defende o fim das taxas diz que o atual sistema limita a liberdade de escolha de cada individuo, e entre alguns argumentos está o de que  as famílias deveriam fazer o que bem entenderem com os 450 francos suíços anuais (aproximadamente R$ 1.660 ao câmbio de 06/02/2018) da taxa.

O debate sobre o assunto não é nenhuma novidade;  para muitos que defendem o atual sistema esconde-se por trás disso a luta contra a televisão pública europeia, isso se viu Inglaterra nos tempos de Margaret Thatcher contra a poderosa rede estatal BBC (e seus mais variados e qualificados canais), aonde a dama de ferro acabou perdendo o jogo para a estatal, por trás disso também estava uma máquina de guerra lançada pelos Estados Unidos para impor sua produção audiovisual no velho continente. O problema que trata também da produção cultural atinge em cheio o esporte, e de forma direta a realização do Tour de Suisse que depende da cota da  SSR para viabilizar a competição.

Uma das grandes voltas europeias, o Tour de Suisse, depende das verbas da tevê estatal para sobreviver – foto: TDWSport

O Tour de Suisse, ou volta da  Suíça começou a ser disputada em 1933 e desde sempre reuniu os grandes nomes do ciclismo profissional, entre seus vencedores figuram Bartali, Koblet, Motta, Adorni, Merckx, Vlaeminck, Hampsten, Sean Kelly, Garzelli, Vinoukurov, Cancellara, Rui costa com seu tricampeonato consecutivo em 2012/13/14. Neste ano a prova acontecerá entre os dias 9 a 17 de junho.

A SSR – Sociedade Suíça de Radiodifusão é a responsável pela cobertura de uma grande variedade e eventos esportivos por todo o pais contribuindo para a ancoragem do esporte na sociedade e também oferecendo uma plataforma para esportes com menor presença na mídia em geral e com transmissões nos quatro idiomas falados no país, o alemão, o francês, o italiano e o romanche. Produzir  material  em quatro idiomas para a televisão aberta,  torna os custos daquele pais ainda mais elevados e inviabiliza a entrada de operadores privados que já demonstraram não ter interesse em dividir os custos da cobertura com a organização do evento, mantendo o mesmo investimento. Nos últimos anos a cobertura televisiva e a transmissões internacionais fortaleceram a competição que além do desporto levou para o mundo as belas paisagens  dos cantões suíços, divulgando o país para o mundo;  também esse argumento é utilizado na manutenção da atual condição

Segundo a SSR,  se a proposta do NoBillag for  aprovada, uma das consequências  para os fãs do esporte, na melhor das hipóteses  seria a alta dos preços para receber em casa as transmissões esportivas e como acontece em outros países (vejam que não é só no Brasil que o esportes menores perdem espaço) a oferta se reduziria a esportes mais populares e consequentemente mais lucrativos para as corporações.  Ou seja o risco de alguma modalidade menor (e não se trata de ciclismo)  sumir da grade da programação é gigantesco, sem um patrocinador de peso para o televisionamento, o TdS perderia seu espaço na grade.

O Tour de Suisse para o canal estatal SSR é  a maior produção anual. Durante os nove dias do evento, mais de 70 pessoas, dez câmeras, quatro motocicletas, dois helicópteros e um avião são mobilizados para produzir imagens de qualidade. Mais de 1500 quilômetros são percorridos e a infraestrutura deve ser montada e desmontada a cada etapa. Na Suíça, o Tour de Suisse é transmitido nas quatro línguas nacionais pelos canais  RSI, RTR, RTS e SRF.

As imagens são levadas a mais de 100 países, com a saída forçada por lei do canal estatal e a falta de um canal privado que fizesse o aporte financeiro necessário para a corrida acontecer, não só se reduziria a visibilidade e o reconhecimento do evento no cenário internacional, mas traria uma consequência direta com a redução das receitas geradas pela publicidade e patrocínio o que repercutiria na qualidade e também na continuidade do evento. Sem a transmissão ao vivo e o impacto que isso gera na população em geral, também seria muito mais difícil para os organizadores obterem as permissões para fechamento de estradas necessárias para essa corrida. Um ‘sim’ para No Billag traria como consequência direta a não realização do Tour de Suisse.

O rico país alpino está colocando em questão não apenas a sua televisão, sua produção cultural, mas também o seu esporte. Assim os defensores do atual sistema,  em sua campanha,  se calçam em um forte argumento ao apontar que  o esporte suíço precisa de um forte serviço de rádio e televisão apoiado por fundos públicos. Um “não” para a iniciativa No Billag é um “sim” para o esporte suíço.

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